>crisálida

>o sol brilha, escaldante e fluorescente lá fora

mas dentro do casulo, onde a pupa espera pela mutação
os raios fulgurantes não penetram
a crisálida resiste, insistente
e se prende à casca, do idêntico modo
como o caranguejo insiste em não rumar para o norte
mas o sol vai ficando mais rutilante
a medida que o dia ocupa sua majestade
e o pedacinho de lua que havia, volta a se esconder
e escondem-se todos, em retroalimentação
a lua, do sol, o presente, do futuro
e a noite, do dia, como a pupa, do calor
e, ainda assim, a redoma da vida que nos protege e cega
sabe que não se pode esconder do sol nem da chuva pra sempre
e a natureza entra-nos alma e consciência adentro, pra verdejar
nascem-nos brotos virgens na casca
flores nas pontas dos galhos cinza e retorcidos
e frutos polpudos e aromáticos no cerne do corpo
então a luz entra pela janela e cega-nos
pequenas toupeiras assustadas e prenhes de auto-comiseração
defendendo-se da vida, da trasmutação e da felicidade
mas, em seu tempo, vão-se embora o temor pusilânime
a insegurança e a mania de viver na aurélia
e a borboleta, aprendendo a voar e se afeiçoando às próprias cores…
flap, flap, flap…

… sai ao sol do meio-dia, a ganhar o mundo.

>noite estrelada

>

quando o véu da noite veio cobrir o firmamento
olhava para a lua, um arco crescente delgado
ainda difuso no colorido das nuvens
e pensava se ele olharia para aquele mesmo céu
o negrume ia devorando o dia, devagar
para dar morada ao brilho amarelado de vênus
que se finge de estrela só para enfeitiçar os amantes
mas estaria ele com os olhos voltados para os astros?
a cantoria das cigarras e dos primeiros grilos
preencheu o vazio entre ela e o mundo
e o cheiro da noite que inspirou com vigor
pareceu trazê-lo para mais perto, como o faria um telescópio
o verde das árvores feneceu com o adeus do sol
e elas pareceram ainda mais vivas e cúmplices agora
negras e silentes contra a nesga azul-escuro do crepúsculo
e em algum lugar, a anos dali, ele olharia para a lua
talvez à beira do rio, dono de um correr manso
aspirando a terra molhada pela última chuva
ouvindo outros grilos, quiçá uma cigarra
e sorrindo à visão de um pirilampo solitário
ajeitaria os cabelos, cruzaria os braços
e ficaria ali por alguns segundos, a ver o céu
que era o mesmo céu que ela sorvia com o olhar
e talvez a infinitude do cosmo os fizesse sentir menos distantes
porque tudo é centesimal diante do firmamento 
e passageiro quando comparado com as estrelas
e não há dor nem saudade que perdurem
quando há estrelas no céu e cantoria de cigarras
“A Noite Estrelada”, Vincent van Gogh

>pipi

>a felicidade é um riscar de fósforo
chama que se consome inteira em segundos
e deixa na memória a imagem da luz e do calor
difusos, iridescentes e breves


a gente sabe disso desde criança
quando o pai brinca de cavalinho na sala
e a mãe conta uma história para dormir
prazeres intensos, incomparáveis e breves


a gente sabe disso desde adolescente
quando o coração bate agitado no peito
e parece parar por causa do primeiro amor
inocente, único e breve


a felicidade é breve, como é breve a vida
e, adultos confusos e cegos que nos tornamos
esquecemos que o fugaz nos escapa ao controle
que é ilusório, obtuso e efêmero



tudo isso a gente sente, intui e sabe de cor
desde a primeira vez em que a felicidade pousa no ombro
feito borboleta colorida, bolha de sabão
leves, ligeiras e breves


cadê? voou! cadê? estourou…
porque tudo o que é lindo, é breve
e a beleza que mora num quarto de hora
é rara, necessária e finita


como a pétala da dama da noite
e o aroma doce que ela exala no quintal
como o laranja psicodélico do crepúsculo
que os pintores e fotógrafos teimam em capturar


disso tudo eu sempre soube, nunca deixei de acreditar
mas só me dei conta da simplicidade da alegria essa noite
quando vi meu filho acordar, acender a luz do lavabo
fazer pipi sozinho e voltar a dormir


tudo isso muito breve
muito simples e, no entanto, inesquecível
um momento fugidio e unico, talhado na memória 
só pra fazer uma mãe eternamente feliz


>presente de Yemanjá

>

http://sujeitosimplesujeitocomposto.blogspot.com/

“a melancolia já não me apela mais, já não me seduzem dias só de chuva. acordo cedo. a melancolia já não me coloca mais conversas. e no azul claro já não perco mais o olhar em lágrimas. nem em álbum de fotografia me procuro mais. vela vermelha, incenso de canela, batom de morango. nostalgia não tem cor de aurora. e a melancolia não me dobra mais. casacos antigos e dizeres de Byron, toques de flauta a me encobrir. não. o dia tem cor de fogo, e quer se criar. a melancolia já não me costura mais em fios de retroceder. botas de marchar, música de pular, cantos de encontrar: são os tons de não lamentar. a melancolia já me é feia e nem digna de porta-retrato. não me emolduro mais nela ou imito suas dores no meu sentir. natural, caminhante, contemporâneo, aceso. flor de laranjeira pro dia começar. 

Essa pérola é de Ivy Gobeti, um presente que o mar trouxe para mim, como uma mensagem antiga numa garrafa, náufrago que eu me encontrava no momento em que a conheci. Essa é uma das minhas favoritas, e já se tornou uma espécie de oração matinal, que repito para acreditar, para fazer as palavras enraizarem-me alma a dentro através dos olhos. Mas essa leonina intrépida, poison ivy de língua ferina, olhos atentos e estatelados para o mundo e alma contestadora, tem muitos outros tesouros que ela oferta, de lambuja, para o mundo.

Menina-Ivy, que nasceu poesia, vive através da poesia e vai transcender pela poesia, é a dose de realidade de que todos precisamos para voltar ao centro, um morde-assopra gostoso que ela pratica com os olhos de âmbar rasgados pousados no rosto da gente. Estar perto dessa moça é sentir as moléculas se agitar ao seu redor e o espaço-tempo se dobrar pela vontade férrea dela de mudar o mundo, abrir a própria mente, queimar o cosmo e, ultra-leve, ser soprada pela brisa. As palavras de Ivy podem ser duras, e são, mas ela também age com uma doçura inacreditável quando quer.

Quando abri meus ouvidos e o meu espírito meio oco, meio anestesiado para Ivy, cheguei à conclusão óbvia de que eu seria alguém tremendamente infeliz se passasse por essa vida sem conhecer alguém como ela, sem rir e chorar com um ser humano tão forte, e ao mesmo tempo tão frágil, quanto essa garota pequena, de cabelos tingidos de fogo e gargalhada sonora. A capacidade de regeneração de Ivy é deslumbrante; essa menina é um fígado. E o carisma que ela exala de cada poro, irresistível.

Isso tudo eu intuía antes de saber que Ivy, além de ser chocolate com surpresa dentro, dona de uma autenticidade e uma coragem do tamanho dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná juntos, é também uma escritora inata, que rabisca os versos que a gente sempre quis fazer, mas nunca conseguiu colocar no papel, e arranca lágrimas dos olhos mais cegos e embrutecidos com a poesia latente, gema preciosa que ela produz. Eu sempre acreditei que gente assim como Ivy, que escreve aos borbotões e dá luz às palavras mais certas na hora mais incerta para o autor e mais perfeita para o leitor, fosse metade escritor e metade xamã, curandeiro de almas. Agora, tenho certeza disso.

Para terminar, mais uma pérola dessa erva que, de venenosa mesmo, não tem nada. Ivy está mais para flor de cajá, sol das cinco da tarde, picolé de açaí, sombra fresca e samba de raiz. A paulista branca mais preta de Maringá entrou na minha vida na raça, no grito, com confidências, conselhos e lições que eu nunca vou esquecer. Se você abrir as porteiras da sua alma um centímetro que seja, ela também vai entrar em sua vida, como um raio de sol descortinando auto-piedade, negação e mesquinhez. Pode até doer, em princípio. Mas é de um sentimento de libertação único. 

“Dos dias em que sonhava
Não sinto falta alguma,
Dos dias em que sonhava,
Eu, logo eu, a sonhadora
De nome e sobrenome,
Não me afeta sequer mera saudade,
Não me expressa sequer pouco traço,
Dos meus sonhos presos já não
Me constituo, já nem os prego
A mim nos meus sonos ou despertares.
Já não anuncio o dia em horas de esperar,
Já não espero as noites em horas de iludir.
Dos sonhos fica só a alma de sonhar,
Do longe se traz presente aos dias de realizar.
Dos sonhos já não conheço as promessas,
Que das pernas agora é só o prosseguir.
Nasce dos olhos só o olhar,
Nasce das mãos só o tocar.
Dos dias de sonhar não se faz nenhuma saudade,
Que de tudo que sempre amei sonhar,
E de tudo que sempre me quis em cantar,
Prefiro de nós não mais o querer,
Mas o fazer infinito que vem da chance de nossa idade.”


>infância

>



nunca acreditei que a colher lambida
fosse capaz de azedar o doce
nem que beber do copo de alguém
entregasse seus segredos


não acho que palitar os dentes depois do almoço
seja a maior gafe do mundo
nem que comer frango com as mãos
choque a burguesia de fato


minhas mochilas nunca foram da moda
e meus tênis eram de lona
quando as meninas se sentavam comportadas
era a mim que as professoras repreendiam


jamais ninei meus ursinhos
nem colecionava barbies
minha verdadeira especialidade
era brincar de escolinha com as bonecas


nas enchentes na fazenda
ficava entediada com a sessão da tarde
e na companhia da criançada da escolinha
me esbaldava com as poças de lama


nunca dancei ballet nem fiz natação
e se pudesse voltar no tempo
ficaria de fora dos dois
só para aprender capoeira


eu achava que me casaria com o superman
e chorei quando ele perdeu para o apocalipse
hoje sei que o clark não existe
mas ainda acredito em mocinhos e vilões


meu pai não me deixava comer cheetos
nem tomar sacolé da esquina
o que não pode ter sido uma boa decisão
porque hoje não resisto a nenhum deles


muita coisa mudou de lá pra cá
minhas pernas espicharam, meu cabelo escureceu
e eu virei um adulto tuberoso e aborrecido
mas ainda lambo a colher do doce


>(des)toada

>


eu, que sempre fui tieti de Chico
ouvindo suas profecias e lamentos em muitas vozes
a ponto de beber um cale-se de vinho na ceia
deveria saber que um retrato em branco e preto
raramente fica apenas no soneto

>enseada

>


caminhava pela areia lisa e sem pedras da praia
e firmava o olhar no horizonte a sua frente
morada do sol, a se esconder atrás do morro de pedras
fazendo sombras compridas onde as ondas vinham quebrar

os dela eram tamancos de madeira do verão de outrora
mas seus pés segiam nus, num andar cadenciado
marcado pelo bater constante das sandálias
que lhe pendiam displicentes das mãos morenas

a brisa soprava forte em seus cabelos
deixando em desalinho o penteado, o vestido
mas também a sua mente que, distante
vagueava à lembrança de uma promessa de outro carnaval

clac-clac-clac-clac…

ela deveria ser a unica moça sozinha na enseada
a marchar em linha reta, em direção ao poente
com os olhos fixos na espuma que lhe lambia os pés
e o peito oco, ressoando uma canção de amor

clac-clac-clac-clac…

os pulmões ela enchia da maresia úmida e salgada
e levantava o rosto para o céu, para observar as garças 
que, na maré vazante e com o sol baixo no horizonte
rasgavam a água num vôo rasante para pescar

o sorriso ela ofertava a crianças e casais
e as mãos livres ela batucava ao longo do corpo
a fingir de percussão e harpa
num dueto que apenas a sua alma ouvia

não deixava pegadas nem trilha
pois as ondas logo vinham beber em seus rastros
e fazer da presença dela naquele porto uma ausência
como o barco à deriva, inimigo do cais

clac-clac-clac-clac…

ela deveria ser a unica moça triste na enseada
onde os risos, a cantoria e os copos faziam festa
para aquela gente eufórica, com fome de celebrar
onde a ninguém seria permitido sucumbir à saudade

clac-clac-clac-clac…

fixou os olhos na bola vermelha do sol
sentindo-os arder e marejar
e achou impróprio para alguém, à beira-mar
se permitir salgar o rosto sem o refresco de um mergulho

perdeu de vista o porto para aonde deveria retornar
e parou de contar as tantas vezes em que olhou para trás
esperando pelo resgate que ela sabia não existir
como sentia inexistentes as cordas, os nós e o recomeço

a ela só faziam companhia o eco das garças
e o chamar soporífero das marolas, pra lá da arrebentação
onde ela imaginava, mais por otimismo do que por intuição
morarem os sonhos antigos e o querer perene da estiagem 

clac-clac-clac-clac…

ela deveria ser a unica moça a jogar com a sorte na enseada
porque havia caminhado tanto, de tão longe
para simplesmente não estar ali
para inadverditamente desejar voltar

clac-clac-clac-clac…

chegou ao final da praia, onde a areia abraçava o morro
para aonde ela não podia mais caminhar
e achou impróprio, para alguém tão longe de casa
esperar pela mensagem do náufrago numa garrafa

pois não haveria mensagem, não poderia haver 
não haveria sinal luminoso, ela não poderia esperar
nada que lhe redesenhasse o destino, há muito traçado
e atado a seus pés, tal qual a âncora de navios assombrados 

voltou as costas para o sol, que ainda resistia à chegada da lua
viu desenhada na areia a silhueta negra, longa como o tempo
e fechou os olhos para o norte, tampou as narinas para o vento
para poder retornar ao cais, peixe fora d’água, a esmorecer

clac-clac.
tic-tac-tic-tac-tic-tac…